Maioria das pessoas em trabalho remoto no Pará tem ensino superior

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No Estado, dos 2,9 milhões de ocupados, apenas 76,9 mil estão em casa, após a retomada econômica na pandemia do novo coronavírus

Apenas 3% das pessoas ocupadas no Pará ainda estavam em home office no mês de julho, de acordo com uma pesquisa divulgada pelo Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), com bases em dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No total, são 2,9 milhões de pessoas trabalhando, porém, apenas 76,9 mil estão em casa, após a retomada econômica na pandemia do novo coronavírus.

Desse número, a maioria possui ensino superior completo (cerca de 56%) e recebe mais de três salários mínimos (11%), o que equivale a um valor acima de R$ 3.135. Além disso, boa parte dos que seguem em home office possuem casa própria (79%). Quanto à raça e ao gênero, 51% são mulheres e 49%, homens; e 72% são negros, enquanto 28% são não-negros.

Segundo especialistas, os dados do IBGE apontam uma disparidade econômica e social no país, já que o número de pessoas que permanecem em casa é desproporcional ao número de trabalhadores ocupados em cada região. Por exemplo, estavam nesta condição, em todo o país, 10% de toda a população ocupada, em julho. Porém, o número é maior no Sudeste, onde 13% dos trabalhadores estavam em trabalho remoto; e menor no Norte, onde apenas 4% trabalhavam em casa no mesmo mês. No Sul, o indicador chega a 9% e, no Nordeste, a 7,8%. Já o Centro-Oeste, o percentual era de 9%.

Para o economista André Cutrim, especialista em desenvolvimento econômico, existem vários motivos por trás disso, e não apenas a desigualdade em si. “Ainda que a pobreza e a desigualdade caminhem de forma próxima, são diferentes. O problema da pobreza no nosso país, que é histórica, é que não envolve só a carência de recursos públicos para os que estão em vulnerabilidade, mas também a falta de gestão para que esses recursos cheguem até as pessoas, que as políticas públicas alcancem elas. No momento atual, essa distinção do trabalho acaba refletindo na precarização histórica, já que muitas pessoas não pararam de trabalhar porque podiam ser demitidas. Isso é um reflexo da falta de políticas de assistência social no Brasil, e ainda precisamos de muitas gerações para que seja minimizado”, comentou.

‘Benefício’ para os mais qualificados, especialmente a parcela que tem curso superior completo, o home office ainda segue para muitas pessoas, entre elas a arquiteta Ingrid Yanne, de 24 anos. Ela é dona de um escritório, junto com uma sócia, e as duas entraram em trabalho remoto no dia 20 de março, mesma época em que a pandemia chegou ao Pará. Segundo ela, as duas aproveitaram que não estavam indo ao local para reformá-lo, por isso o período de home office foi estendido.

Uma das maiores dificuldades enfrentadas pela trabalhadora durante a pandemia foi em relação à carteira de clientes. “As obras pararam e os projetos também, inicialmente. Porém, como as pessoas estavam mais em casa, foram percebendo a necessidade de alterações e reformas, e em um segundo momento os projetos começaram a aparecer em demanda. Agora, as obras estão voltando ao normal”, pontuou a arquiteta. Ingrid conta que a reforma do ambiente de trabalho só foi possível porque o valor já estava reservado para essa finalidade.

A empresária acredita que o trabalho remoto também funcionou para quem é autônomo. Ela também ficou em home office em sua outra função – trabalha com uma loja, e durante a pandemia as vendas foram feitas exclusivamente pela internet. “Acho que essa modalidade cabe tanto ao funcionário como ao autônomo, não necessariamente a quem ganha mais ou tem a vida estabilizada”, disse.

Por outro lado, muitos trabalhadores não tiveram o privilégio de parar suas atividades, como foi o caso do motorista de aplicativo José da Costa Júnior, de 38 anos, que continuou trabalhando durante toda a pandemia. Antes do vírus, ele atuava como auxiliar administrativo, mas, como o escritório foi fechado no pico da contaminação, precisou encontrar outra fonte de renda, no transporte por aplicativo. Seu horário de trabalho, hoje, é das 19h até as 8h30 da manhã. “Em casa moramos eu, minha avó, minhas duas filhas, a mãe das minhas filhas e a tia dela, e nenhum de nós teve sintomas devido à nossa prevenção, como separar elas do quarto que eu dormia”, lembrou.

A maior dificuldade que Júnior sentiu foi ficar afastado da família e manter contato direto com o público e até com pessoas infectadas. Pelo lado positivo, ele conta que o trabalho tem suprido todas as suas necessidades e que não houve dificuldade financeira, porque já tinha uma reserva. “Não senti muito porque estava preparado pra uma emergência, mas conheço motoristas que tiveram que devolver o carro”, disse.

Já a servidora pública Cristiane Lima, de 35 anos, ficou em home office de março até julho, quando o expediente retornou em regime de escala. Na primeira fase, os trabalhadores ficavam em regime presencial durante uma semana e depois voltavam ao trabalho em casa por mais uma semana. Agora, com a evolução das fases, estão em um sistema de trabalhar três semanas presencialmente e uma em home office.

Para a servidora, o trabalho remoto foi muito produtivo. Inclusive, o excesso de jornada foi a maior dificuldade enfrentada por ela durante a pandemia. “Trabalhei até demais. Para mim, esse foi o problema, porque ficou meio confuso qual o momento de parar. Quando você está no trabalho, acaba seu horário, você vai para casa, vai para a academia, vai fazer suas coisas, e quando você está em casa não tem muito o que fazer, então acaba dando uma exagerada e passa despercebida no horário”, comentou. Mesmo assim, ela conta que só retomou as atividades presenciais quando foi decidido no órgão.

Embora tenha havido excesso de trabalho e o estresse por conta do isolamento, Cris acredita que o sistema home office é privilegiado. “Primeiro: pra você executar um bom trabalho você precisa de estrutura. Computador bom, internet boa, um bom local, tranquilo, sem muitas interferências externas. E tem a fonte de renda que não foi perdida mesmo nesse momento”, enfatizou a servidora.

Panorama dos trabalhadores em home office no Pará

Total de ocupados: 2,9 milhões

Ocupados em home office: 76,9 mil (3%)

Sexo dos ocupados em home office: 51% mulheres e 49% homens

Cor/raça: 72% negros e 28% não negros

Escolaridade: 44% sem ensino superior e 56% com ensino superior

Domicílio: 21% sem casa própria e 79% com casa própria

Trabalhadores por faixa de renda em home office: 11% + de três salários; 3% de um a dois salários; 1% até um salário.

Panorama dos trabalhadores em home office no Brasil

Total de ocupados: 81,4 milhões

Ocupados em home office: 8,4 milhões (10%)

Sexo dos ocupados em home office: 56% mulheres e 44% homens

Cor/raça: 34% negros e 66% não negros

Escolaridade: 26% sem ensino superior e 74% com ensino superior

Domicílio: 28% sem casa própria e 72% com casa própria

Trabalhadores por faixa de renda em home office: 32% + de três salários; 18% de dois a três salários; 7% de um a dois salários; 4% até um salário.

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